40 JANEIROS CAPÍTULO O9

CAPÍTULO 09


ANDRÉ 


Comecei a trabalhar no escritório e com o passar do tempo, fui me acostumando à nova rotina. O trabalho não era difícil e, como office boy — ou “óxi boy”, como minha avó insistia em dizer — eu quase não ficava parado no escritório. Meus patrões eram o doutor Edson, que acumulava as funções de advogado e contador, e dona Eliete, que cuidava da agência de empregos. Os dois eram casados, mas não demorou para eu perceber que a convivência ali não era das melhores.

O doutor Edson tinha um humor instável: às vezes tentava parecer engraçado, noutras era de uma grosseria sem tamanho. No início, eu trabalhava diretamente com ele, resolvendo os serviços externos tanto da advocacia quanto da contabilidade. No escritório também trabalhavam a Kelly, sobrinha da dona Eliete e uma espécie de secretária dela, e o Sérgio, responsável pelos serviços externos da agência de empregos que ela administrava. Os dois eram só um pouco mais velhos do que eu — ela tinha quinze anos, ele, dezesseis, ou seja, uma exploração de menores descarada. Lembro que, logo de cara, achei o Sérgio muito bonito. Um sorriso daqueles que chamam atenção sem esforço. A essa altura, eu já tinha certeza de que era gay, mas isso era um segredo que eu pretendia guardar a sete chaves pelo resto da vida. Meu maior medo era que alguém descobrisse.

A dona Eliete não foi muito com a minha cara no começo. Acho que desconfiava que eu fosse uma espécie de espião do marido, e me tratava com certa frieza. Mas tudo mudou depois de um episódio que aconteceu quando eu já estava há cerca de três meses trabalhando lá.

Eu levava um pagamento em dinheiro dentro da bolsa que costumava usar quando fui assaltado, bem na porta do prédio. Foi rápido demais. O homem mostrou o revólver por baixo da camisa e pediu a bolsa. Eu entreguei sem pensar e voltei correndo para o escritório, muito nervoso. A dona Eliete e a Kelly perceberam na hora que eu estava pálido, quase sem cor, e me deram água com açúcar enquanto tentavam me acalmar. Eu gaguejava, tentando explicar o que tinha acontecido.

Pouco depois, o doutor Edson me chamou em sua sala. As perguntas que ele fez tinham um tom estranho, desconfiado demais. Saí de lá revoltado. Comentei com a Kelly, quase chorando, que parecia que ele não acreditava em mim. A indignação foi crescendo, crescendo, até que resolvi voltar à sala dele. Dessa vez, para confrontá-lo.

— Eu não posso continuar trabalhando com alguém que desconfia de mim — fui logo falando, tentando manter a voz firme. — Eu fui assaltado, não tenho culpa disso.

Ele nem levantou os olhos dos papéis. Fez um meio sorriso torto antes de responder.

— Engraçado… — disse, com aquele tom meio debochado. — Justamente no dia em que você estava com dinheiro, acontece um assalto. E agora você vem pedir pra sair. Conveniente, não acha?

Aquilo me atingiu em cheio. Senti a raiva aumentar. 

— Então o senhor acha mesmo que eu inventei tudo isso? — perguntei. — Eu fui muito bem criado pra não querer algo que não é meu.

— Eu só estou dizendo que a situação é estranha. 

Respirei fundo. Não adiantava discutir. Eu já tinha entendido tudo ali.

— Pois é. Estranha mesmo — respondi. — E eu não vou trabalhar num lugar onde acham que sou ladrão. Estou indo embora. 

Virei as costas e saí da sala antes que ele dissesse qualquer outra coisa.

No corredor, encontrei a dona Eliete. Ela já tinha ouvido parte da conversa. Veio atrás de mim, aflita.

— André, espera… — disse. — Eu acredito em você. Eu vi a sua cara quando chegou aqui. Ninguém finge aquele susto.

— Obrigado, dona Eliete — respondi. — De verdade. Mas não dá pra ficar.

Ainda cheguei a ouvir ela discutindo com o marido, me defendendo. Mas peguei minhas coisas, me despedi da Kelly, que me abraçou sem dizer nada, e saí. Naquele instante, cheguei a me sentir orgulhoso por ter tido coragem de falar o que eu estava sentindo, o que era raro. 

Segui por mais ou menos um mês apenas estudando, tentando entender o ritmo da escola nova. Aos poucos, as coisas começaram a ficar mais suaves. Fiz amizade com algumas pessoas bem legais — a Cristiane, a Regina e o Rômulo — que riam das mesmas besteiras que eu. Também comecei a gostar de alguns professores: o Alex, de matemática financeira e o Luís Carlos, de Português, cada um era legal do seu jeito. Eu começava a me sentir menos deslocado. Até que um dia recebi um recado da minha vizinha. Era o telefone que eu tinha deixado como contato. 

O recado era da dona Eliete, pedindo pra eu ir no escritório no dia seguinte. Ela me chamou para trabalhar de volta. Disse que o Sérgio iria sair, porque tinha conseguido uma vaga na Arameflex — uma das empresas com as quais a agência dela trabalhava — e que, dessa vez, eu ficaria mais diretamente com ela no dia a dia. Aquilo já me deu um certo alívio.

O dr. Edson também me chamou na sala dele. Pediu desculpas pelo ocorrido, num tom meio protocolar, e anunciou que aumentaria meu salário para surpreendentes 75% do salário mínimo. Fiquei olhando para ele, tentando decidir se agradecia ou se ria por dentro.No fim, acabei aceitando. Só o fato de trabalhar mais com ela do que com ele dessa vez já me tranquilizava um pouco. No fundo, eu morria de medo dele. 

A partir daí, as coisas ficaram mais tranquilas. A dona Eliete e eu nos aproximamos bastante e passamos a ter uma relação ao mesmo tempo divertida e carinhosa. Ela puxava minha orelha de vez em quando, mas também era muito gente boa.

Eu ainda fazia uma coisa ou outra para o dr. Edson, mas ele colocou como office-boy o Júnior, sobrinho dele, com quase dezoito anos, que ficaria ali até receber uma resposta do quartel. O Júnior era divertido e, aos sábados, quando ficávamos no escritório das oito ao meio-dia fazendo a limpeza, o tempo passava rápido. A gente ria, colocava música, reclamava do pó e transformava a obrigação em algo mais leve. Só que às vezes quando a gente precisava encerar o chão, ele ficava só de sunga. E eu tentava disfarçar, evitava ao máximo olhar pra ele. Ele era negro, alto, magro. E bem atraente. 

Durante a semana, os filhos do dr. Edson e da dona Eliete — o Flávio, de doze anos, e a Patrícia, de dez — também apareciam por lá de vez em quando. Quando não tinha muito o que fazer, eu acabava brincando com eles. A dona Eliete observava a cena, suspirava e dizia, rindo: 

— Pronto, arrumei outro filho!

Lá na rua, eu e o Marcos continuávamos firmes na nossa saga de procurar tudo o que saía sobre a Patrícia nas revistas. Foi por causa disso que acabei me aproximando mais da Adriana, aquela menina que colecionava revistas da Mônica com a Deise e com quem eu mal falava na infância. Ela continuava colecionando revistas, só que agora eram de TV e celebridades, tipo Amiga e Contigo.

Como o Marcos já tinha um contato mais próximo com ela, acabei me chegando também. No começo, confesso, era mais para garantir as fotos da Patrícia para a nossa pasta do que por qualquer outro motivo. Mas, com o tempo, fui me acostumando com o jeito dela, meio esnobe, meio dona da razão. Eu e o Marcos passamos a ir com frequência à casa dela fuçar as revistas e arrancar as páginas que tinham matérias e fotos da Patricia antes mesmo que a coitada lesse. No fim das contas, era bem divertido.

Por falar na Patrícia, em novembro de 89 fomos assistir a um show dela pela segunda vez, no Esporte Clube Iguaçu. Mas, como dessa vez o show era mais tarde, minha avó implicou, fez aquele drama básico, e minha mãe resolveu ir com a gente “só pra garantir”. No começo, eu morri de vergonha de estar ali com a minha mãe, fingindo naturalidade enquanto por dentro implorava para o chão me engolir. Mas depois, relaxei. 

O show foi ótimo. Eu e o Marcos éramos os fãs mais animados do lugar. Cantávamos tudo, gritávamos, acenávamos, e a Patrícia interagiu bastante com a gente do palco. O problema é que o show começou muito tarde e quando acabou, já passava de uma da manhã. Voltamos de ônibus, eu e o Marcos tagarelando sem parar, revivendo cada música, cada sorriso, cada olhar e minha mãe seguia ao nosso lado, em silêncio, com aquela cara de quem estava cansada, exausta e profundamente arrependida da decisão que tinha tomado. E prometeu que jamais passaria por aquilo novamente. 

Em paralelo a isso, minha sexualidade se manifestava de um jeito mais claro, como costuma acontecer na adolescência. Eu passava a reparar mais nos corpos, nos olhares, em certas situações que antes não chamavam tanta atenção. Num sábado em que fui sozinho fazer a limpeza do escritório, acabei me masturbando pela primeira vez. Já tinha quinze anos, até que foi tardiamente, se comparado ao que eu ouvia os outros comentarem. E, para meu próprio espanto, não foi o sorriso do Sérgio nem o corpo do Júnior que acabaram servindo de gatilho para aquilo. Foi o dr. Edson. Justamente ele, com aquele jeito rude, seco, que mais me intimidava do que qualquer outra coisa. Eu mesmo achei estranho na hora, quase absurdo, mas foi ali que comecei a entender que desejo nem sempre segue uma lógica. 

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