40 JANEIROS CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 8 - Sacolas Pesadas, Passos Maiores
ANDRÉ
Já tinham se passado alguns meses desde que eu havia parado de falar com o Marcos. Nem lembrava direito o que eu tinha dito naquele dia — só sabia que tinha sido algo suficiente pra deixá-lo magoado. Mesmo assim, eu vinha pensando muito nele.
Depois que minha amizade com o pessoal da antiga rua esfriou — com a Teca eu ainda falava de vez em quando, bem pouco — e de ter cortado de vez com o Sandro e o Elison, a verdade é que eu andava me sentindo muito sozinho. Justamente na idade em que mais precisava de amigos: a adolescência. Acho que foi a primeira vez que pensei em mim desse jeito, como um adolescente de verdade.
Era fevereiro de 1989. Eu estava prestes a começar na escola nova, à noite, e minha avó falava cada vez mais na ideia de eu começar a trabalhar. Tudo isso ia se acumulando dentro de mim, me deixando nervoso, ansioso, sem saber direito o que fazer com tanta coisa ao mesmo tempo. Voltei até a jogar minha bola enorme contra a parede de casa — era o único jeito que eu conhecia de tentar botar aquilo tudo pra fora.
Um dia, resolvi dar o primeiro passo em relação ao Marcos. Pensei bastante e cheguei a uma conclusão simples: de todos os amigos que eu já tinha tido, ele era o único que sempre esteve do meu lado em tudo. O único que realmente gostava de mim. E eu tinha sido um idiota em brigar com ele por causa de um babaca como o Elison.
Fui até a rua Macaé e sentei na escada em frente ao prédio dele. Quem sabe ele não aparecia? Levei a última edição da revista Os Novos Titãs — sim, eu ainda colecionava, e aquela era a de número 35 — pra fingir que estava ali por acaso, só lendo.
Até que ele apareceu no portão.
Abaixei a cabeça, fingindo atenção total à revista. Pelo canto do olho, vi que ele me viu… e virou o rosto pro outro lado. Ia ser mais difícil do que eu imaginava.
Foi então que uma voz esbaforida quebrou o clima.
— Marquinhos! Vem cá, meu filho!
Era a Mariléia, uma vizinha dele que morava no prédio em frente, bem na l escada onde eu estava sentado. Obesa e fofoqueira — eu sempre a achei chatíssima. Naquele dia, porém, foi ela quem me salvou.
— Marquinhos, vamos lá no mercado comigo. Comprei muita coisa e não dou conta de trazer sozinha. Deixei as sacolas lá e vim caçar alguém pra me ajudar!
Ela falava alto, rápido, sem respirar. Eu mantive a cabeça abaixada até ouvir o grito direcionado a mim:
— E você, garoto! Pode ajudar também?
Levantei o rosto. Olhei pra ela. Depois olhei pro Marcos, que me encarava em silêncio. Pensei: por que não?
E lá fomos nós três em direção ao mercado — o Disco, que era mais perto de onde a gente morava A Mariléia falava sem parar sobre uma festa. Eu não prestava atenção em nada. Só olhava pra ele. Ele olhava pra mim. Acho que meu olhar dizia tudo: fala comigo, por favor.
E ele falou.
— Olha só, André… ela quer que eu vá nessa festa e…
Nem ouvi o resto. O importante era que ele estava falando comigo. E, de repente, aqueles quatro meses sem contato pareceram não ter existido. Voltamos a nos falar ali mesmo, andando pela rua, carregando sacolas que nem eram nossas.
Pouco tempo depois, comecei no Centro Educacional Tiradentes, à noite. Tudo ali era estranho para mim. A maioria da turma era formada por jovens mais velhos, já maiores de idade, e eu me sentia completamente deslocado naquele início. Não falava com quase ninguém. Para piorar, tive muita dificuldade logo na principal matéria do curso: contabilidade. Era tudo excessivamente técnico e chato — bem diferente de qualquer coisa que despertasse algum entusiasmo em mim.
Em março, porém, aconteceu algo que, de certa forma, mudaria minha vida e fortaleceria ainda mais minha amizade com o Marcos. Eu já era fã da cantora Patricia (ex-Trem da Alegria) havia pelo menos um ano e meio, quando vi, na passarela de São João, uma faixa enorme anunciando que ela faria um show no Pavunense, um clube pertinho de onde eu morava. O show seria à noite, e eu nunca tinha ido sozinho a um show, a um baile ou a qualquer evento desse tipo. Tinha certeza de que minha avó implicaria.
Pensei rapidamente em quem poderia ir comigo, e a primeira pessoa que me veio à cabeça foi a Teca. Afinal, ela gostava do Trem da Alegria quando era menor e, vez ou outra, eu comentava com ela sobre a Patricia. Fui até a casa dela, fiz o convite, ela aceitou, e tudo parecia resolvido. Para minha surpresa, minha avó deixou, sem grandes reclamações, desde que eu não chegasse tarde e fosse acompanhado — exatamente como eu previa.
No dia marcado, fui mais cedo à casa da Teca para confirmar, mas ela veio me atender toda sem graça: o pai não tinha deixado. E agora? Olhei automaticamente para o prédio do Marcos, na esquina da rua, e fui até lá, torcendo para que ele estivesse em casa. Nem tinha cogitado chamá-lo antes, já que ele sempre debochava do meu gosto pela Patrícia, ou de quando eu corria para dentro de casa quando minha avó dizia que ela estava cantando na TV. Mas, para minha surpresa, ele aceitou sem pensar muito, o que me deixou imediatamente aliviado.
Com tudo certo — e depois de mil recomendações da minha mãe e da minha avó — fomos ao show. Após a abertura de um ainda pouco conhecido Zeca Pagodinho, Patrícia entrou no palco. Eu fiquei completamente hipnotizado. Não conseguia falar, nem tirar os olhos dela. Já o Marcos, ao meu lado, não parava de comentar o quanto ela era linda. No final, ela ficou próxima ao palco dando autógrafos. Mesmo nervoso, fui até lá, incentivado pelo Marcos, que parecia tão — ou até mais — empolgado do que eu. Não lembro direito de cada detalhe daquele momento; o nervosismo apagou boa parte das cenas. O Marcos, mais tarde, se encarregou de me lembrar de tudo.
O fato é que saí dali ainda mais fã do que antes — e ela ganhou outro fã também. A partir daquele dia, Marcos passou a ser meu companheiro nas buscas por revistas, jornais e programas em que ela aparecia. Assistíamos a tudo para comentar depois, como se aquilo também fosse parte da nossa amizade.
Duas semanas depois do show, minha mãe viu no jornal um anúncio: vaga de office boy para rapazes sem experiência, meio salário mínimo, no centro de São João de Meriti. Minha avó disse que, para começar, estava bom. Na segunda-feira de manhã, fui cedo ao endereço, que funcionava como uma mistura de agência de empregos com escritório de contabilidade. Para minha surpresa, eu era o único candidato — provavelmente por causa do baixo salário. Fui encaminhado para falar com o senhor Edson, que achou que eu era novo demais e pediu que eu voltasse com minha mãe. À tarde, voltamos juntos. Ela falou sobre responsabilidade, sobre eu já estar estudando contabilidade, sobre como trabalhar cedo poderia me ajudar. No fim, ficou acertado que eu começaria na segunda seguinte.
No fim de semana, minha cabeça não pensava em outra coisa. Trabalhar de dia, estudar à noite. Era isso. Em um dia você é criança; no outro, precisa aprender a ter responsabilidades. Foi em meio a esses pensamentos que vi, mais uma vez, aquele homem que havia me abordado meses antes, subindo a rua. Dessa vez, eu estava sozinho. Não me escondi. Queria resolver aquilo de uma vez.
Fiquei parado, encarando-o, até que ele se aproximou. Disse que estava arrependido por ter me ameaçado, que eu não precisava mais ter medo, que não iria me incomodar novamente. Não consegui responder. Ele seguiu caminho, mas continuou rondando meus pensamentos por muito tempo. E se eu tivesse aceitado a proposta dele naquele dia? O que teria sido diferente? Sei que é errado pensar assim, mas talvez eu não tivesse demorado tanto a me descobrir sexualmente se tivesse ido à casa dele. Ou talvez estivesse morto — vai saber. De qualquer forma, ele nunca mais apareceu. Sumiu da rua, da minha vida e, aos poucos, também dos meus pensamentos.
MARCOS
Eu ainda estava meio chateado com o André. Não exatamente com raiva, mas naquele jeito de quem finge que não liga, mas liga. Quatro meses sem falar com alguém que antes estava sempre ali não passam assim, fácil.
Quando vi ele sentado na escada em frente ao prédio, lendo revista e olhando pra minha janela como quem não quer nada, pensei: “Olha só… agora resolveu aparecer”. Fui até o portão e vi que ele me olhou, mas virei o rosto. Não ia facilitar.
Foi quando ouvi a voz da Mariléia ecoando pela rua.
— Marquinhos! Vem cá, meu filho!
Já sabia que vinha coisa. A Mariléia não chamava ninguém só pra dar bom-dia. Aposto que iria pedir algo…
Ela começou a falar sobre as sacolas no mercado e, quando dei por mim, ela já estava convocando o André também.
— E você, garoto! Ajuda aqui!
Ele atendeu ao pedido dela e veio em nossa direção. Olhei pra ele. Ficou aquele silêncio estranho no ar. E lá fomos nós.
No caminho até o mercado, a Mariléia falava pelos cotovelos. Eu e o André ainda em silêncio. Ele me olhava com aquela cara de cachorro arrependido. Aquilo me desarmou mais do que qualquer pedido de desculpa. Meio sem querer, acabei dando o primeiro passo.
— Olha só, André… — acabei dizendo — ela quer que eu vá numa festa e…
Nem sei por que comecei a falar disso com ele. Mas funcionou. A conversa foi engatando, meio torta no começo, depois mais natural. Quando vi, já estávamos rindo de novo. Quatro meses de silêncio viraram nada. Não teve pedido formal de desculpa, nem discurso bonito. Só sacolas pesadas, uma vizinha inconveniente e a sensação de que, apesar de tudo, algumas amizades não se perdem tão fácil.
Pouco tempo depois disso, um dia o André bateu no portão lá de casa. Estava meio esbaforido, falando rápido, atropelando as palavras, dizendo que a Teca tinha dado um furo nele e que ele precisava muito de mim. Do jeito que falava, parecia que o mundo ia acabar se eu dissesse não.
Confesso que achei graça. Ver ele daquele jeito, meio desesperado, era novidade. E o motivo era um show da Patricia, aquela mesma cantora que ele idolatrava e que eu fingia não levar a sério só pra provocar. Aceitei na hora. Primeiro porque eu queria mesmo sair pra me distrair um pouco e, depois, porque, no fundo, eu também tinha curiosidade de ver aquela menina de perto.
Fomos pro show. Foi legal ir a um lugar diferente com ele; afinal de contas, aquele era o primeiro programa “jovem” que a gente fazia junto. O André estava muito ansioso, e eu tentava o acalmar, fazendo brincadeiras, debochando de tudo pra tentar descontrair. Ficamos imaginando por onde a Patricia entraria, inventando as hipóteses mais loucas. Aguentamos uma apresentação chatérrima do Zeca Pagodinho até que o apresentador chamou a Patricia ao palco. Quando isso aconteceu, deu pra ver que o André simplesmente travou. Ficou quieto, parado, com aquela cara de quem tinha acabado de ver um milagre. Eu, ao contrário, virei comentarista oficial: falava da roupa, do cabelo, da voz, de como ela era linda mesmo de perto.
No fim do show, quando ela começou a dar autógrafos, eu praticamente empurrei o André pra irmos também. Ele tremia mais do que vara verde, então resolvi tomar a frente. Cheguei todo simpático, pedi um autógrafo no braço mesmo — já que não lembramos de levar caneta — e disse, sem pensar duas vezes, que adorava duas músicas dela. Ela riu, assinou, e aquilo já tinha valido a noite. E lembro també da cara do André, completamente em choque. Ele também conseguiu um autógrafo na mão, mas, quando precisava responder alguma coisa pra ela, a voz mal saía.
Na volta, viemos conversando sobre tudo o que tinha acontecido. Ele disse que não lembrava direito de como tinha sido. Normal. Eu lembrava por nós dois. A partir daquele dia, virei oficialmente parceiro dele na missão Patricia: revista, jornal, programa de TV, qualquer coisa. A gente assistia junto e comentava depois, como se fosse novela ou jogo de futebol. E, no fim das contas, eu, que tinha ido só como acompanhante, acabei virando um grande fã dela também.
Estar com o André sempre fazia eu não esquecer do meu lado criança, mas no fundo eu sabia que estava crescendo. Muita coisa tinha mudado naquele ano. Aquela experiência que tive trabalhando na loja do seu Plínio me deu ainda mais vontade de crescer logo, de ter minha liberdade. Era muito chato ter que sempre depender dos outros para ter as coisas.
E foi assim que meio que sem querer, tive minha primeira experiência homossexual de verdade. Ele era um camelô que vendia carteiras, que me dava olhares quando eu passava e eu fingia não perceber. Eu sempre olhava as carteiras e perguntava o preço. Até que um dia ele insinuou que poderia ser de graça se eu quisesse e acabou acontecendo.
Quando saí de lá, não senti alívio nem culpa, só confusão. Ele não era bonito, nem atraente, mas, ainda assim, aquela experiência tinha sido mais marcante do que a que eu tinha vivido antes com a funcionária da minha tia.
Saí com mais perguntas do que respostas. Sobre desejo, sobre vontade, sobre quem eu era, ou estava começando a ser.
Sem entender direito o que sentiam ou para onde iam, Marcos e André avançavam — tropeçando, errando, mas agora ainda mais juntos.
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